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Prosa e Poesia

O que se pode esperar de uma palestra em que a mesa é conduzida por alguém como Edilamar Galvão e a platéia por pessoas como João Guedes, Luis Felipe Pondé, Ronaldo Entler, Malu Homem, Rubens Fernandes Jr. e dezenas de alunos lotando o auditório?! Bem, eu não tinha dúvidas desde o início… A palestra foi maravilhosa, muito enriquecedora e com direito a extensão no horário de tanto que entreteu os alunos e professores ali presentes.

Como palestrantes, José Miguel Wisnik e Michel Laub - ambos escritores e algumas coisinhas mais. A discussão se deu a partir das duas formas diferentes de como o Futebol é encontrado nos livros desses dois autores. Michel Laub possui uma visão mais fictícia enquanto Wisnik uma visão mais real, experimental. 

Michel Laub escreveu seu livro por causa da sua paixão pelo esporte, partindo quase exclusivamente de sua memória e recorrendo muito pouco à pesquisa (cerca de 5%). Sua maior preocupação foi de fazer uma ficção marcante, que entretesse o leitor - até aquele que não se interessa por futebol - por completo, já que considera que no Brasil há poucas ficções realmente marcantes, sendo esta sua maior dificuldade. Ele não queria usar em seu livro uma linguagem futebolística só porque estava falando de futebol e nem uma linguagem característica de ficções, o que acabou levando o livro à um drama familiar além do tema futebol, “virando as costas pro jogo”. 

Já Wisnik fez diferente. Ele utilizou o futebol como sua pesquisa de campo ao longo de sua vida e é do tipo daqueles torcedores fanáticos - analisa, assiste, joga e vai ao jogo. O futebol, para ele, desafia você a ter uma relação crítica de fora e de dentro, logo é importante analisar essa visão interna do futebol para todos, pois por mais que você não seja fanático, todos possuem uma relação com ele de qualquer maneira, e em seu livro ele parte desse ponto de vista.

Em determinado ponto da palestra questionou-se o fato da hegemonia do EUA não se dar no quesito esporte. Eu nunca tinha parado para pensar sobre isso e confesso que fiquei surpresa, pois faz muito sentido. Tudo está sob influência dos EUA, mas no esporte não… Nos EUA o futebol não é o esporte mais querido, é o basquete… E nem por isso essa situação se repete no mundo, pelo contrário, sabe-se da paixão mundial pelo futebol. No entanto, o livro de Wisnik não aparece como uma apologia ao Brasil, pelo contrário, mostra o futebol como potência e fracasso ao mesmo tempo.

Já na questão futebol como arte, Wisnik comparou futebol com literatura citando o cineasta Pasolini, no qual o esporte pode ser jogado em prosa, com ênfase na defesa, ou em poesia, com ênfase no desejo de ataque e não-linear, que seria o caso do Brasil. E conclui: “só no futebol o não-gol pode ter uma importância tão grande”, assim não tem como não ser arte.