DESEJO DE PENSAR

May 11th, 2009 by Marcela Sanchez

congresso

Um debate de idéias pouco provável. Estimulantes provocações. Espírito empreendedor para sua organização. Pessoas criando com a inquietação do desejo de pensar o mundo. São várias tensões – externas e internas. Matrizes do pensamento. Essa foi a minha experiência na última semana, participando do I Congresso de Jornalismo Cultural. Evento realizado pela Revista Cult, em São Paulo, no TUCA. Se não saí com respostas, saí com os problemas que tenho a resolver. Não há resposta dada. É preciso pensar todos os dias.

O Congresso conquistou-me por provocar o questionamento, quando em nosso cenário prevalece a falta de debate ditando as pautas. Quer dizer, o aprofundamento ganha palco quando o verbo surfar é que faz o refrão contemporâneo – a superfície é o bastante para que se chegue ao maior número de praias e tão mais informação seja consumida. Essa diretriz chegou à cultura, à crítica cultural, ao jornalismo cultural: o indistinto conceito de cultura reponde hoje por indústria.

E o leitor agora deve perguntar-se o que isso tem a ver com esse espaço, com o que é RP. Eu logo me explico. Muito chama minha atenção o potencial de mobilização social que existe nas ações de relações públicas. Para tanto, meu ponto de partida é uma frase que insiste em morar no meu pensamento desde quando a ouvi: “relações públicas, mais do que uma profissão, é uma filosofia.”

Quer dizer, aí entendemos RP como compreensão do ser humano, do espaço e do tempo no qual está inserido. Há ética acima de qualquer fim. Coerência entre discurso e ação (algo que me parecia definitivamente démodé, embora eu o entenda como alicerce constitutivo para qualquer estrutura sólida). Resultados intangíveis que, para mim, expressam distância segura, e por que não dizer séptica, do inevitável engessamento neoliberal que modula a indústria cultural contemporânea.

Então, para que o trabalho de formiguinha de um relações públicas possa ser eficaz, não basta sucesso na elaboração da mensagem, enquanto forma e conteúdo, e no estabelecimento de canais de comunicação adequados ao conteúdo, é imprescindível que haja receptor apto para tal – e então o jornalismo cultural entra em cena.

A crise que a crítica cultural é capaz de desencadear no emissor e no receptor justamente a provocação que inquieta a alma e conduz ao pensamento. É a introdução de perguntas a serem respondidas. Epifanias, acredito eu, nascem dessa crise. O incessante pensar permite conectar os fragmentos recortados pela modernidade. A via é de mão dupla: iluminar e deixar-se iluminar, ou, enfim, o estabelecimento do diálogo. Legislar para o gosto da platéia é reificar o homem, banalizar a arte e, em dissonância à produção de sentido, desmantelar o conteúdo. Tudo e todos são normalizando e classificados segundo as categorias do mercado cultural – postura essa que assume o receptor como incapaz de digerir a densidade da crítica.

Portanto, diante do até aqui exposto, o RP se vê frente a um abismo que se dá entre a reflexão da crítica cultural e o utilitarismo do consumo cultural. A primeira foi desativada, hoje é marginal, enquanto o segundo fala a todo público através dos veículos, das vitrines e das celebridades. Daí ser necessário o espírito empreendedor para organização do I Congresso de Jornalismo Cultural, que explica tê-lo definido inicialmente como debate de idéias pouco provável.

Expor que as pautas perderam há muito tempo a dimensão da complexidade cultural, justamente no TUCA, cuja história o simboliza enquanto resistência cultural e política, torna o evento de proporções extraordinárias. Essa estrutura permitiu que estudantes, acadêmicos e profissionais congregassem-se para importantes discussões. Encerro, nas palavras de Quintana, com a idéia que melhor compreende o espírito das falas e pensamentos que ali transitaram: “Escrever não muda o mundo. As pessoas mudam o mundo. Escrever só muda as pessoas.”

 

Para saber mais das discussões e tensões que marcaram o Congresso:

http://congressojornalismocultural.wordpress.com

 

A  cobertura completa está no twitter:

http://twitter.com/revistacult

 

Outras informações, como a grade e os palestrantes:

http://www.espacorevistacult.com.br/congresso/default.html

 

E também é possível encontrar a galeria de fotos no flickr:

http://www.flickr.com/photos/revistacult

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