EXPERIÊNCIAS DO DIÁLOGO
June 2nd, 2009 by Marcela Sanchez

Dias atrás entrevistei o Professor Camilo Braz, com quem tenho aulas de Planejamento Estratégico. Pesquisador e profissional de mercado, tem experiência em consultoria e planejamento de marketing, produtos/marcas e pesquisa de mercado. E o que para mim o torna irresistível tentação ao deleite da cognição, está ligado à área de estudos da cultura, cinema, identidade, atuando como editor e colaborador de diversas publicações especializadas, conferencista e tradutor no idioma inglês, francês e italiano. A fala pausada parece obedecer o tempo de quem já esbarrou no concreto do mundo organizacional e já se deixou esbarrar pelos invisíveis laços da cultura. É o tempo de quem é gente nas contingências e nos sonhos que nos amarram à vida.
Procurei tão querido mestre para falar sobre inquietações nascentes de recente leitura. Talvez não por seu conteúdo, mas pelas associações por ela despertadas em mim. O diálogo me parece ser a possibilidade de verificar a coerência do pensamento, que por vezes alça vôos próprios e nos conduz a mundos nos quais apenas nós existimos. O diálogo nos amarra ao nosso tempo. Tempo esse dito na sensível cadência de meu interlocutor. O saldo desta minha experiência está no registro que segue. (Em itálico, palavras do professor.)
Ponto de partida: Para mim, Relações Públicas é uma metodologia alinhada à identidade institucional da empresa. Os tipos de vozes e argumentos que ela poderá assumir estão diretamente relacionados com a prática do relacionamento e, também, com um tipo de filosofia, mais afeita a um diálogo constante com a diminuição das adversidades e com o fortalecimento da confiança e da clareza nas transações do público interno e externo das organizações.
“A equação entre cultura e meios de comunicação de massa é um problema incrustado de variáveis, hipóteses e incógnitas, na medida em que é um dos fundamentos da ação social.” (MARTINO, Mauro Sá. Comunicação: Troca Cultural? São Paulo: Paullus, 2005.) Três elementos infinitos – cultura, comunicação, sociedade. O ser humano, o telespectador e o ser social.
Hoje se estuda uma condição nova, que altera o jogo da comunicação para a passagem da cultura de massa para a cultura das mídias. Não sei se podemos nos referir em “hipóteses” e “incógnitas”, quando se analisa a comunicação em função de seu fundamento e origem social. Talvez, o que se possa analisar sobre a percepção das forças que se agitam em torno do receptor da comunicação e o ser social seja a quantidade e a qualidade da agência (influência) que surge nessa interação.
A essa conjuntura, acrescento o caráter transformador das relações públicas, questionando em que medida ele se dá e se, de modo geral, é possível comunicar sem alterar. Camilo diz que a característica estratégica e a função de relacionamento e controle da marca institucional indicam a presença do caráter transformação em RP. E mais: Outra vertente importante relacionada com o aspecto transformador das Relações Públicas pode ser encontrada na sua disposição de diálogo contínuo com o ambiente externo e interno das empresas. Isso propicia um tipo de sensibilidade destacada para o profissional da área, ao compatibilizar mudanças e transformações contínuas do cenário social e das relações empresariais.
Ainda transformação. A conversa é sobre como RP contribui com a produção cultural e como reverbera a esse profissional a crescente independência do mercado. E Camilo, como sempre, diz na excelência de suas palavras, como eu jamais melhor saberia colocar: A contribuição mais significativa, no meu entender, atribui às Relações Públicas um papel de destaque, ao colaborar com o diálogo empresa e profissional da cultura. A desenvoltura do RP em adequar objetivos para ambas as partes é importante; assim como a de adequar e de alinhar interesses, em prol de ganhos institucionais para as empresas e de significativa contribuição no processo da cultura. Por outro lado, a capacidade crítica e estratégica do RP, em vez de rompimento ou distância dos processos culturais, aprimora programas ou projetos com maior alinhamento de público-alvo e de resultados para ambas as partes. Claro que isso muda o espaço do profissional de RP. Ele amplia e contribui diretamente para a conquista de novos espaços de ações no campo da comunicação e na ação social.
No universo empresarial há receptividade para o posicionamento das organizações, uma vez que em termos de tecnologia e qualidade, de modo geral, já há uma divisão tão larga de do mercado. Pergunto então, no universo da opinião públicas, as pessoas querem ouvir sobre valores, posicionamento, consciência? Sabem o que isso significa; estão prontas para ouvir? Qual a formação dessa opinião pública?
As empresas querem ouvir, sim. Também, praticar, implantando um posicionamento institucional claro e benéfico para elas e para a sua atuação no ambiente social. O mercado – essa configuração sempre voltada para as trocas e ao lucro – está em um processo dinâmico em que a ação do profissional de RP, como um profissional da comunicação estratégica – contribuirá significativamente no acompanhamento desse processo. As empresas que não estiverem prontas para interagir e para ouvir o ambiente interno e externo estarão em extinção. Todas as empresas bem sucedidas e atuantes estão continuamente atentas.
Dizem os teóricos contemporâneos – entre eles, Jurgen Habermas, Fredrick Jameson, Nestor Garcia Canclini, entre outros – que a agência, ou seja, os dispositivos de divulgação e captação dos interesses sociais e econômicos, é a principal forma de compartilhamento de informações, seja ele na forma de promoção de selfs profissionais, produtos, marcas e serviços. A capacidade crítica é localizada, nesse processo, no alargamento do processo de acesso à informação, semelhante ao proposto pela Internet, e pelo aumento dos índices de escolaridade e de acesso a bens culturais. O papel do RP, nesse viés, é o de se comprometer eticamente com processos responsáveis e de alcance para condições futuras melhores.
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