INTENÇÃO E FINALIDADE
June 2nd, 2009 by Marcela Sanchez
“Não podemos viver apenas por nós mesmos,
nossas vidas estão ligadas por mil laços invisíveis.”
Herman Melville
A razão de ser desse post é: a citação acima diz sobre relações públicas, não diz? Invisto ainda noutras possibilidades dadas por aspas que colocam aqui pensamentos que tecem sentido ao meu propósito acadêmico. Desculpe exigir as linhas abaixo ao leitor, mas quero fazer mapa legível do meu pensamento para poder então chegar a quem me lê.
”Nós, que estamos empenhados em modificar não só a natureza humana como as demais, temos de descobrir meios de mostrar o homem por um prisma bem determinado, um prisma em que ele se revele suscetível de ser transformado por intervenção da sociedade. Se o ator não estabelecer uma autêntica ligação com o seu novo público, se não tiver um interesse apaixonado pelo progresso humano, essa nova orientação não poderá concretizar-se.“ BRECHT, Bertold. Estudos sobre teatro. Tradução de Fiama Pais Brandão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005
No léxico da ABRP temos: “Relações Públicas é a atividade e o esforço deliberado, planejado e contínuo para estabelecer e manter a compreensão mútua entre uma instituição pública ou privada e os grupos de pessoas a que esteja, direta ou indiretamente, ligada.” Desde janeiro de 2007, quando aprovada no curso de RP, meus esforços são para fundamentar o diálogo entre as aspas todas aqui contidas. Tive hoje a impressão de que Herman Melville esboça a direção em que há luz.
Desamarrando o nó do pensamento: se ao ator é essencial ter consciência de seu corpo e do espaço ocupado quando em cena; ao RP é essencial a consciência da responsabilidade de alterar o movimento dos invisíveis laços que compõem a rede social que responde por contemporâneo. Noutras palavras, formas de subverter o caos de uma sociedade eletrônica que não prevê encontro e reflexão.
Produto é típico da racionalidade moderna. No entanto, acredito eu, somos mais do que isso. Precisamos de mais do que isso. Daí o recalque permanente e o gozo incapaz de nos satisfazer. Volto a uma questão já mencionada por mim em post anterior, que é a capacidade de sustentar-se no tempo. O efêmero, seja na lógica publicitária ou entre celebridades, precisa apenas dialogar com fetiches já articulados pela indústria cultural, pois toda plataforma é palco banalizado. A idiossincrasia que encanta e faz permanecer está além das fronteiras do império; o incomodo se anuncia.
As artes cênicas possuem especificidades, são artes da presença e não se reproduzem. O teatro nunca está pronto, se faz a cada dia e depende do contato entre artista e público – isso o constitui. Frágil e forte. E aí encontro as relações públicas em assonância: não se encerra em si, completa-se na relação com outro. Infinito no tempo e no espaço. O ofício do artista, bem como o ofício do relações públicas, diz sobre o tempo do sujeito que o faz e não sobre a sua imagem. (Talvez por isso, eu, atriz e futura RP, acho difícil explicar o que eu faço…)
Exige responsabilidade. Isso é soberano. Expor faz parte do teatro e de RP e não há como saber em que isso vai ser “triturado” pela platéia. Inexoravelmente há uma parceria com quem vai te escutar, as discussões de idéias acontecerão. Nessa coprodução, por assim dizer, a necessidade de conhecimento se expande, é preciso dedicação e paixão – aí está a capacidade de transformação. Frágil e forte.
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