Tabaco X Relações Públicas
June 3rd, 2009 by Alexandre de Jesus
Os primeiros estudos científicos documentando o papel do tabaco no desenvolvimento do câncer e outras doenças começaram a aparecer no começo dos anos 50. Memorandos internos do Tobacco Institute, organização fundada pelas indústrias tabaqueiras, associam a descoberta a uma falha de Relações Públicas (RP). A isso chamaram “Emergência 1954”.
Lutando desesperadamente por sua vida econômica, a indústria do tabaco lançou o que muitos consideram a mais cara, longa e bem sucedida campanha de RP de “crise de gerenciamento” na história. Nas próprias palavras da indústria, a campanha foi dirigida de forma a “promover os cigarros e protegê-los contra estes e outros ataques” por meio da criação de dúvidas sobre os efeitos à saúde sem negá-los de verdade e defendendo o direito do público de fumar, sem insistir na prática.
A relação entre cigarros e RP tem relatos desde a década de 50, e começo do século 20, quando ambos eram indústrias novatas e as empresas de tabaco usaram as habilidades do marketing para “fisgar” primeiro as mulheres e, depois, os jovens.
Edward Bernays, sobrinho do Pai da Psicanálise Sigmund Freud, foi o pioneiro no uso da psicologia e outras ciências sociais na indústria de RP para desenvolver suas campanhas de persuasão do público. Dizia que “se conhecesse o mecanismo e os motivos da mente de um grupo seria possível controlar e regimentar as massas de acordo com o nosso desejo sem que eles soubessem disso”. Uma das técnicas favoritas de Bernays para manipular a opinião pública era o uso indireto das “terceiras partes” para pedir pelas causas de seus clientes. Exatamente o que a indústria usa nos dias atuais, como associações de bares, restaurantes, agências de publicidade, sindicatos; para conseguir bloquear legislações e impedir o avanço do controle do tabagismo.
Segundo Dráuzio Varella, ao comentar o livro “O Cigarro”, de Mário Cesar Carvalho, “O autor mostra como ocorreu a tomada de consciência da sociedade em relação aos malefícios do fumo e como a indústria boicotou as informações científicas que esclareciam a associação do cigarro com o câncer e com as doenças cardiovasculares. Até a década passada, por exemplo, a indústria se negava a reconhecer até o mais óbvio: que a nicotina provoca dependência, em um deboche clínico aos que enfrentam o tormento de parar de fumar”.
“A estratégia de rebater todas as evidências de que o cigarro provoca doenças mortais conseguiu assegurar aos fabricantes o direito de manter, por muitos anos, a propaganda do cigarro pelos meios de comunicação de massa, com mensagens dirigidas a adolescentes, concebidas para aliciá-los à escravidão da dependência de nicotina. Existe, na história do capitalismo, exemplo mais abominável de crime contra as crianças, perpetrada em nome do lucro?”.
“No Brasil, apesar do avanço inegável dos últimos anos, adoção de medidas restritivas à publicidade do cigarro aconteceu com 30 anos de atraso em relação aos Estados Unidos, como nos lembra o autor. Desde 1971, é proibido anunciar cigarro na TV americana; no Brasil, a proibição foi feita há pouco mais de um ano” pela Legislação Estadual – Proibição de Fumo – Lei 13.016, de 19.05.08.
Acesse a Lei – Proibição de Fumo – Lei 13.016;
Nota:
Pesquisa feita sobre o artigo publicado pela primeira vez em 1994 no Portal Tobacco no SourceWatch, patrocinado pela American Logacy Foundation e comentários de Dráuzio Varela sobre o livro “O Cigarro”.
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